Pesquisa nacional mostra que 50,4% dos entrevistados leem as Escrituras diariamente, enquanto oração e frequência aos cultos apresentam índices superiores a 85%

A Bíblia continua presente na rotina de milhões de evangélicos brasileiros. Mas uma nova pesquisa nacional apresenta um dado que merece mais do que uma comemoração.

Segundo a Pesquisa Evangélica Nacional 2026, realizada pelo Instituto Valentes Intel, 50,4% dos entrevistados afirmam ler a Bíblia todos os dias.

O número impressiona pela quantidade de pessoas que mantêm contato diário com as Escrituras. Mas também levanta uma questão incômoda para a própria igreja: se quase metade dos entrevistados não declara uma leitura diária da Bíblia, o que isso revela sobre a maneira como os evangélicos brasileiros estão vivendo a fé?

O levantamento ouviu 14.933 pessoas autodeclaradas evangélicas nas 27 unidades da Federação e investigou hábitos religiosos, valores, comportamento, consumo de mídia, rotina e outros aspectos da vida desse público.

A diferença entre orar, ir à igreja e ler a Bíblia

Os números ficam ainda mais interessantes quando colocados lado a lado.

85,1% dos entrevistados afirmam orar diariamente.

85,5% dizem participar de cultos pelo menos uma vez por semana.

Mas 50,4% afirmam ler a Bíblia todos os dias.

Existe, portanto, uma diferença considerável entre essas práticas.

O levantamento não permite afirmar que quem não lê a Bíblia diariamente seja menos comprometido com a fé. Também não mede a profundidade da leitura, o tempo dedicado às Escrituras ou o quanto aquilo que foi lido é colocado em prática.

Mas o contraste é suficiente para provocar uma reflexão.

Será que a rotina religiosa de parte dos evangélicos brasileiros está mais concentrada em participar de cultos e consumir conteúdos cristãos do que em estudar diretamente as Escrituras?

A pesquisa não responde a essa pergunta. Mas fornece números que permitem fazê-la.

A Bíblia está presente, mas de que maneira?

Outro resultado chama atenção.

Mesmo vivendo em uma época dominada por celulares e plataformas digitais, 68% dos entrevistados dizem preferir a Bíblia impressa, enquanto 25,5% preferem utilizar aplicativos para a leitura.

Ao mesmo tempo, o ambiente digital está profundamente inserido na experiência religiosa.

66,3% afirmam consumir conteúdo cristão digital diariamente.

Isso cria outro contraste.

O evangélico brasileiro não abandonou a Bíblia de papel. Mas está cada vez mais cercado por vídeos, cortes de pregações, devocionais, podcasts, mensagens, redes sociais e outros conteúdos relacionados à fé.

A questão, portanto, não é simplesmente se o cristão está consumindo conteúdo religioso.

É qual é a fonte principal da sua formação espiritual.

Existe uma diferença entre assistir alguém explicar um texto bíblico e abrir a Bíblia para estudar aquele texto.

Existe também uma diferença entre receber diariamente uma frase cristã no celular e desenvolver o hábito de conhecer o contexto, a mensagem e a aplicação das Escrituras.

O risco de confundir conteúdo cristão com conhecimento bíblico

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes que os números ajudam a colocar em discussão.

Nunca foi tão fácil encontrar conteúdo cristão.

Em poucos segundos, qualquer pessoa pode acessar uma pregação, um estudo, um devocional ou uma explicação sobre determinado versículo.

Isso é uma oportunidade.

Mas também pode criar uma dependência de conteúdos sobre a Bíblia sem necessariamente desenvolver o hábito de ler a própria Bíblia.

Uma pessoa pode passar horas consumindo conteúdo cristão e ainda conhecer pouco das Escrituras.

Por isso, o crescimento do conteúdo digital cristão não deve ser automaticamente interpretado como crescimento do conhecimento bíblico.

A pesquisa mede hábitos declarados. Ela não mede maturidade bíblica.

E essa distinção é fundamental.

Metade lê todos os dias. A outra metade merece atenção

O dado de 50,4% pode ser celebrado por representar uma parcela expressiva de pessoas que afirmam manter contato diário com as Escrituras.

Mas existe outro número que não deveria ser ignorado.

49,6% dos entrevistados não afirmaram ler a Bíblia diariamente.

Isso não significa que essas pessoas não leiam a Bíblia. Algumas podem ler várias vezes por semana, outras ocasionalmente.

Ainda assim, o resultado mostra que a leitura diária não é uma prática declarada por metade da amostra.

Para a igreja brasileira, talvez essa seja a parte mais importante da pesquisa.

Não apenas perguntar quantas pessoas estão nos cultos.

Não apenas quantas oram.

Não apenas quantas acompanham conteúdos cristãos nas redes sociais.

Mas também perguntar:

Estamos formando cristãos que conhecem a Palavra de Deus?

Uma pesquisa que mede hábito, não transformação

É importante evitar uma conclusão que os dados não sustentam.

Ler a Bíblia diariamente não significa automaticamente compreender a Bíblia.

Também não significa obedecer àquilo que ela ensina.

Da mesma forma, não ler todos os dias não significa necessariamente ausência de fé ou de compromisso cristão.

A pesquisa não investigou essas questões.

O levantamento foi realizado por meio de questionário estruturado online, com participação voluntária. A base final reuniu 14.933 respondentes e recebeu ponderação pelo método Raking, utilizando referências do Censo Demográfico 2022 e da PNAD Contínua 2024.

Por isso, os números precisam ser lidos como um retrato produzido a partir dos participantes do levantamento e de sua metodologia, e não como uma contagem direta de todos os evangélicos brasileiros.

Essa ressalva não elimina a relevância dos dados. Apenas impede que eles sejam usados para afirmar mais do que a pesquisa realmente mediu.

A pergunta que fica para a igreja

Talvez a principal contribuição dessa pesquisa não esteja nos 50,4%.

Está na pergunta que vem depois deles.

O que estamos fazendo com a Bíblia que lemos?

Porque uma igreja pode ter muitos leitores da Bíblia e ainda assim precisar crescer em conhecimento, discernimento e prática.

Pode ter cultos cheios, muita oração e enorme consumo de conteúdo cristão.

Mas o desafio continua sendo transformar a Palavra conhecida em Palavra vivida.

Como escreveu Tiago:

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes.”
Tiago 1:22

A pesquisa apresenta números.

A reflexão que eles provocam é responsabilidade da igreja.

Não basta perguntar se estamos lendo a Bíblia. Talvez seja hora de perguntar se a Bíblia está moldando a maneira como estamos vivendo.