Pesquisa da AMTB apresenta estimativa de R$ 1,50 por evangélico ao mês em ofertas missionárias. Demonstrações financeiras da Junta de Missões Mundiais e informações da Junta de Missões Nacionais ajudam a compreender os desafios do financiamento missionário brasileiro.

Quanto os cristãos brasileiros investem para que o evangelho alcance pessoas que ainda não tiveram uma oportunidade real de conhecê-lo? Apesar da expressiva presença evangélica no país, ainda faltam dados nacionais abrangentes que permitam calcular com precisão quanto os fiéis destinam às missões, qual parcela dos recursos das igrejas financia essa atividade e quanto chega efetivamente aos povos não alcançados.

Uma referência para essa discussão está na Pesquisa Força Missionária Brasileira 2022, realizada pela Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). O levantamento apresenta uma estimativa média de R$ 1,50 por evangélico ao mês em ofertas missionárias, considerando os dados e as projeções utilizados no estudo.

O valor equivale a R$ 18 por ano por pessoa. Em um grupo hipotético de 100 pessoas, corresponderia a R$ 150 mensais ou R$ 1.800 anuais, caso todos contribuíssem nesse nível.

É importante esclarecer que esses valores são cálculos ilustrativos baseados na estimativa da pesquisa. Não representam uma medição direta das contribuições de cada cristão ou congregação brasileira.

A estimativa também não permite concluir que todos os evangélicos contribuem pouco. Para isso, seria necessário conhecer a distribuição das doações, o número de contribuintes e os valores efetivamente destinados às diferentes frentes missionárias.

Ainda assim, o dado levanta uma questão relevante: o volume de recursos mobilizados pelas igrejas brasileiras é suficiente para sustentar o trabalho missionário?

O que revelam os dados das juntas batistas?

No contexto da Convenção Batista Brasileira (CBB), duas organizações desempenham papéis importantes no financiamento e na execução do trabalho missionário: a Junta de Missões Mundiais (JMM) e a Junta de Missões Nacionais (JMN).

A primeira concentra sua atuação na evangelização transcultural em diferentes países. A segunda mobiliza e apoia missionários em território brasileiro, incluindo projetos de plantação de igrejas e iniciativas de assistência social.

Os relatórios dessas instituições permitem conhecer parte da estrutura missionária batista e identificar fontes de financiamento. Entretanto, é necessário distinguir os valores previstos em orçamentos daqueles efetivamente arrecadados e gastos.

Junta de Missões Mundiais: mais de R$ 45 milhões em receitas em 2024

A Junta de Missões Mundiais atua em diferentes países, apoiando missionários, igrejas locais e projetos de evangelização transcultural.

Segundo o relatório apresentado à Convenção Batista Brasileira, a organização registrou, em 2024, atuação em 93 países, com 2.169 missionários envolvidos no trabalho. A maior parte desse contingente era formada por missionários locais, que atuam em seus próprios contextos culturais.

Além dos resultados missionários, as demonstrações financeiras da JMM permitem analisar o volume de recursos movimentados pela organização.

De acordo com os demonstrativos do exercício de 2024, a instituição registrou:

  • R$ 45,24 milhões em receitas totais, incluindo receitas operacionais e não operacionais;

  • R$ 43,64 milhões em despesas totais;

  • R$ 1,60 milhão de superávit no exercício.

Os valores constam das demonstrações financeiras da Junta de Missões Mundiais referentes a 2024, incluídas na documentação da Convenção Batista Brasileira. O parecer de auditoria independente examinou as demonstrações contábeis e concluiu que elas representavam adequadamente, nos aspectos relevantes, a posição patrimonial e financeira da instituição e o resultado de suas operações.

O superávit corresponde à diferença positiva entre as receitas e as despesas contabilizadas no período. Não significa, necessariamente, que todo esse valor estivesse disponível para novos projetos, pois a destinação dos recursos depende da situação patrimonial, das obrigações e das restrições aplicáveis.

De onde vieram os recursos?

As demonstrações financeiras identificam diferentes fontes de receita da JMM em 2024:

Fonte de receita

Valor registrado

Ofertas do Dia Especial de Missões Mundiais

R$ 21.469.195,83

Programa de Adoção Missionária (PAM)

R$ 20.251.166,08

Ofertas do Plano Cooperativo

R$ 431.446,86

Ofertas sem designação específica

R$ 2.161.261,60

Inscrições em eventos

R$ 256.323,40

Esses valores correspondem às receitas brutas das respectivas categorias antes das deduções indicadas nas demonstrações financeiras. Por isso, sua soma não deve ser confundida com a receita total final do exercício.

Os números demonstram a importância das ofertas missionárias e das contribuições recorrentes para a manutenção da estrutura transcultural batista.

O Dia Especial e o Programa de Adoção Missionária representam parcelas expressivas das receitas operacionais registradas. Isso evidencia a relevância da participação das igrejas e dos parceiros na sustentação financeira do trabalho.

Entretanto, os demonstrativos não informam, por si só, quanto cada membro das igrejas contribuiu, quantas pessoas realizaram doações ou qual foi o valor médio das ofertas individuais.

Portanto, embora seja possível conhecer o volume financeiro movimentado pela JMM, ainda não é possível transformar esses números em uma média de contribuição por batista brasileiro.

Junta de Missões Nacionais: como funciona o financiamento missionário?

A Junta de Missões Nacionais atua na mobilização e no apoio ao trabalho missionário em todo o Brasil, com projetos de evangelização, plantação de igrejas e assistência social.

Em sua página institucional de transparência, a JMN explica que adota um modelo de gestão centralizada das ofertas missionárias. Nesse sistema, os recursos recebidos pela organização são administrados de maneira conjunta para garantir o sustento e os benefícios previstos para os missionários.

Entre as fontes de financiamento estão o Programa de Adoção Missionária, conhecido como PAM, e a campanha anual de mobilização missionária. A instituição também recebe contribuições diretas de igrejas e parceiros para determinadas iniciativas.

A JMN informa que o sustento de seus missionários pode incluir remuneração, auxílio para moradia e desenvolvimento do projeto, contribuições previdenciárias, planos de saúde e odontológico, seguro de vida e ressarcimento de despesas operacionais.

Esse modelo procura evitar que o sustento de um missionário dependa exclusivamente do valor que ele próprio consegue mobilizar para seu projeto. Segundo a organização, as receitas são administradas centralmente para assegurar os benefícios previstos.

A instituição também descreve mecanismos de fiscalização, incluindo auditoria da Convenção Batista Brasileira, controles relacionados às exigências legais e auditoria externa independente.

Quanto a JMN arrecadou?

Embora a organização disponibilize informações institucionais sobre sua gestão e transparência, os dados consultados nesta pesquisa não permitiram confirmar um total atualizado de receitas e despesas efetivamente realizadas em 2024 ou 2025.

Por esse motivo, esta reportagem não atribui à JMN um valor anual de arrecadação sem a conferência de suas demonstrações financeiras correspondentes.

A documentação da Assembleia da Convenção Batista Brasileira inclui demonstrações financeiras da JMN referentes ao exercício de 2023. Esses documentos podem servir de base para uma análise histórica, mas não devem ser apresentados como resultados financeiros de 2024 ou 2025.

A distinção é importante: informações sobre a quantidade de projetos, a abrangência territorial e o modelo de financiamento ajudam a compreender a atuação missionária, mas não substituem os demonstrativos contábeis necessários para conhecer a arrecadação anual.

O que os dados das juntas permitem concluir?

Os dados financeiros da JMM mostram que a manutenção de uma estrutura missionária transcultural exige dezenas de milhões de reais por ano. Já as informações institucionais da JMN ajudam a compreender como as contribuições recorrentes e as campanhas são utilizadas para sustentar missionários e projetos em território nacional.

Entretanto, os números das duas organizações não devem ser somados automaticamente para representar todo o investimento missionário batista.

Antes de fazer essa operação, seria necessário verificar a compatibilidade dos períodos contábeis, as categorias de receitas e despesas e a possibilidade de transferências entre organizações ou de recursos contabilizados em mais de uma etapa.

Também não seria correto comparar diretamente as receitas de uma junta com o número de missionários da outra ou dividir o orçamento de uma organização por toda a população evangélica brasileira. Essas operações produziriam médias sem base metodológica adequada.

O que os dados permitem afirmar é que as juntas possuem estruturas distintas, utilizam diferentes fontes de financiamento e dependem da participação de igrejas e parceiros para manter suas atividades.

Para saber quanto os batistas brasileiros investem individualmente em missões, ainda seria necessário reunir informações sobre o número de contribuintes, os valores das doações e a participação financeira das congregações.

O desafio de alcançar os povos não alcançados

A discussão sobre o investimento missionário também precisa considerar a distribuição dos recursos entre as diferentes frentes de atuação da igreja.

Uma publicação do Movimento de Lausanne, de 2023, apresenta uma estimativa internacional segundo a qual apenas 1,7% das ofertas cristãs é direcionado aos povos não alcançados. O mesmo material informa que 82% dos recursos são destinados às igrejas locais e a seus ministérios.

Esses números se referem ao cenário global, não ao Brasil. Por isso, não devem ser utilizados para calcular diretamente a distribuição das ofertas das igrejas brasileiras.

Também é necessário reconhecer que o financiamento das igrejas locais sustenta atividades essenciais, como ensino bíblico, discipulado, evangelização, assistência social e formação de líderes.

A questão não é opor a manutenção das igrejas ao trabalho transcultural, mas avaliar se os recursos disponíveis estão distribuídos de maneira compatível com as necessidades missionárias.

Em comunidades onde o acesso ao evangelho é limitado, barreiras linguísticas, culturais, geográficas e políticas podem exigir anos de trabalho, formação de lideranças e desenvolvimento de comunidades cristãs locais.

Esse cenário demanda compromisso de longo prazo, e não apenas iniciativas ocasionais de arrecadação.

O percentual global de 1,7% ajuda a levantar uma questão importante, mas uma avaliação específica do Brasil depende de dados nacionais comparáveis.

Ainda falta uma medida nacional do investimento missionário

A estimativa de R$ 1,50 por evangélico ao mês apresentada pela AMTB oferece um ponto de partida para a discussão, mas não resolve a questão sobre o investimento missionário brasileiro.

Os demonstrativos financeiros da JMM revelam receitas e despesas efetivamente contabilizadas em 2024. As informações públicas da JMN, por sua vez, descrevem o modelo de financiamento e os mecanismos de controle, mas os valores financeiros anuais mais recentes precisam ser confirmados nos documentos contábeis correspondentes.

Para construir um diagnóstico nacional mais preciso, seria necessário reunir:

  • Dados financeiros anuais das principais organizações missionárias;

  • Informações sobre as ofertas destinadas a missões pelas igrejas e denominações;

  • Número de contribuintes e valores médios das doações;

  • Percentuais dos recursos aplicados em atividades missionárias;

  • Dados comparáveis sobre o investimento destinado aos povos não alcançados.

Sem essa padronização, números isolados podem produzir conclusões equivocadas sobre a realidade nacional.

A Grande Comissão exige compromisso contínuo

Em Mateus 28:19-20, Jesus ordena que seus discípulos façam discípulos de todas as nações. Esse chamado envolve proclamação do evangelho, discipulado, formação de novas comunidades cristãs e compromisso com a continuidade da obra.

O investimento financeiro é uma das dimensões dessa responsabilidade. A oração, o envio de missionários, a formação de líderes e o cuidado com aqueles que servem em contextos difíceis também são fundamentais.

Entretanto, a importância espiritual da missão não elimina a necessidade de responsabilidade financeira. Igrejas e organizações precisam planejar seus investimentos, prestar contas dos recursos recebidos e avaliar se suas prioridades correspondem às necessidades missionárias que afirmam assumir.

Os dados disponíveis não permitem acusar os cristãos brasileiros de falta de generosidade, nem concluir que todas as igrejas investem pouco. Permitem, porém, reconhecer que ainda faltam informações nacionais abrangentes para medir a dimensão do investimento missionário brasileiro.

Mais do que perguntar quanto cada cristão doa, é necessário examinar como os recursos são distribuídos, quais resultados produzem e se contribuem para que o evangelho alcance pessoas que ainda têm pouco ou nenhum acesso à mensagem de Cristo.

Se a Grande Comissão é uma responsabilidade de toda a igreja, o investimento missionário também precisa ser tratado como uma prioridade contínua, planejada e transparente.

A pergunta que permanece é direta: nossas igrejas estão investindo de maneira proporcional ao compromisso missionário que professam?

Responder a ela exige mais do que números isolados. Exige transparência, planejamento e uma mobilização que não dependa apenas de campanhas ocasionais, mas de um compromisso duradouro com a missão de Deus.

 


 

Fontes consultadas

  • Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). Pesquisa Força Missionária Brasileira 2022.

  • Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). Pesquisa Força Missionária Brasileira 2025.

  • Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira. Demonstrações financeiras do exercício de 2024, apresentadas na documentação da Assembleia da CBB.

  • Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira. Página institucional de transparência.

  • Convenção Batista Brasileira. Documentação da Assembleia, com demonstrações financeiras da JMN referentes ao exercício de 2023.

  • Movimento de Lausanne. Publicação sobre mobilização policêntrica de recursos, 2023.